Censura e Manipulação

Aquilo que sempre fora referido entre os militantes do Partido, e em particular entre os membros do Comité Central, era a ideia de, logo após as eleições legislativas, em Outubro de 2015, ou no máximo após as Presidenciais de 2016, fazer-se uma reunião ampla e aberta, um congresso ou uma conferência, onde se pudesse levar a cabo um debate franco, assente numa livre discussão de ideias, sobre a situação política nacional e internacional e as questões e tarefas políticas, ideológicas e organizativas do PCTP/MRPP.

O que se passou, afinal – e sob o pretexto absolutamente falso de que o Comité Central ou alguém ou algum dos seus membros pretenderiam “tomar conta” do Jornal e impedir o acesso a ele de Arnaldo Matos – foi exactamente o oposto.

O Luta Popular foi, a partir da suspensão dos membros do Comité Permanente, transformado num instrumento de puro ódio e dos ataques pessoais mais soezes e de publicação exclusiva dos textos produzidos por Arnaldo Matos e de censura de tudo o que representasse qualquer divergência de opinião ou até o não alinhamento total e incondicional com as posições daquele.

O PCTP/MRPP foi assim, e cada vez mais, dividido entre os que seguiam Arnaldo Matos e actuavam absoluta e incondicionamentel em total conformidade com o que ele determinava e todos os outros, mesmo os que simplesmente manifestavam divergências ou apenas meras dúvidas relativamente ao que se estava a passar, às medidas que estavam a ser adoptadas e/ou aos métodos utilizados, designadamente da falsificação consciente da verdade dos factos e dos ataques pessoais mais infames.

O “amplo debate” e a “livre discussão de ideias” foram afinal transformados na manipulação intencional da verdade dos factos, na censura de tudo o que fosse minimamente discordante e na manipulação não só dos camaradas mais humildes como dos que se esqueceram do que é ter uma coluna direita.

E são vários os exemplos:

1. Todas as minhas intervenções

Desde logo, todos os textos que escrevi para o Luta Popular de 6 de Outubro de 2015 em diante foram censurados, nomeadamente:

            – Carta de 13/11/2015, enviada por mail ao Luta Popular e a Carlos Paisana, enquanto membro do Comité Central e Director do Jornal, após a publicação dos artigos “As catatuas”, “Quem é Sandra Raimundo” e “Os Mesmos que Venderam a Sede de Alcântara” a desmentir várias das denúncias e dos pretensos factos lá indicados e repondo a verdade, carta esta que, como denuncio no meu mail de 23/11, chegou a estar publicada no Luta Popular para logo ser dele retirada, mas mantendo-se uma “resposta” quando aquela já fora censurada (Pode ser lida aqui na íntegra).

            – Carta de 18/11/2015 com a minha demissão que entreguei nesse mesmo dia em mão ao Carlos Gomes, na altura um dos membros do novo Comité Central (Pode ser lida aqui na íntegra).

            – Carta de 23/11/2015, enviada por mail a 24/11 ao Luta Popular e a Carlos Paisana, enquanto membro do Comité Central e Director do Jornal, em que denuncio precisamente a censura que se encontrava a ser efectuada no Jornal, já, obviamente, sem qualquer esperança de que a mesma fosse publicada (Pode ser lida aqui na íntegra).

Por ordem de Arnaldo Matos, foram de igual modo sucessivamente retirados do Luta Popular todos os artigos que escrevi assim como as gravações das minhas intervenções públicas (para mais detalhes, veja-se o artigo “Morte aos Traidores – A sabotagem de uma campanha”). Esse “apagamento” destinava-se e destinou-se, primeiro, a liquidar de vez qualquer hipótese de eleição de deputados no círculo de Lisboa e, depois, a permitir ao seu autor vir proferir barbaridades várias como a de que eu andara durante 3 anos no canal ETV a ensinar aos capitalistas como pagar a dívida, quando fui sempre a única voz a defender clara e frontalmente o seu não pagamento e a saída de Portugal do Euro.

E esse apagamento continua a ser ordenado por Arnaldo Matos, assim que ele verifica que ainda subsiste alguma gravação ou artigo que se “esqueceram” de apagar” e de que é exemplo este mail:

 

2. Resoluções do Comité de Sintra

Rigorosamente o mesmo tipo de censura sucedeu com as tomadas de posição e pedidos de reuniões e de esclarecimentos apresentados por vários camaradas e desde logo pelos Camaradas do Comité de Sintra do PCTP/MRPP. A tal ponto que estes camaradas deliberaram e tomaram uma posição pública que foi enviada por mail a 09/01/2016 aos militantes e colocada na página do facebook do PCTP/MRPP a 08/01/2016 com a seguinte introdução:

“Caros camaradas e amigos, devido a dificuldades que até agora ainda não descortinámos, estas duas resoluções do Comité de Sintra dirigidas ao Comité Central, ainda não foram publicadas no nosso órgão de comunicação, o Luta Popular online.

Por acharmos que devem ser do conhecimento da maioria dos camaradas, resolvemos por todos os meios ao nosso dispor fazê-las chegar a todos.

Leiam e tirem as vossas conclusões, e se acharem por bem, divulguem-nas.

Viva o partido!

Comité de Sintra”

Ler aqui  o conteúdo da resolução de 16/10/2015

Ler aqui  o conteúdo da resolução de 28/12/2015

 

3. Manipulação do camarada Valentim

Tanto a minha companheira como a minha filha, vendo o que se estava a passar, decidiram (pela sua própria cabeça, nada me dizendo e inclusive contra o meu pedido de não escreverem publicamente o que quer que fosse sobre o assunto, até porque previa já o resultado) publicar textos onde tomavam uma posição e que podem ser lidos aqui:

Artigo de Sandra Pereira Vinagre, minha companheira, publicada no Jornal Tornado

Carta de Rita Garcia Pereira, minha filha, publicado na sua página do Facebook

Na sequências destas publicações, das quais apenas tomei conhecimento posteriormente, foi publicado a 15/11/1015 no Luta Popular um artigo intitulado “Porque que te callas, Garcia Pereira?…”, assinado por Valentim Martins, Operário e 2º candidato da lista do Porto, e que me tentava obrigar a tomar uma posição sobre aqueles escritos:

“Se Garcia Pereira não está de acordo com as provocações que os seus familiares e amigos tem feito contra o Partido, então deveria já ter vindo a público condenar essas provocações, publicando essa sua condenação no Luta Popular Online e nas páginas do facebook dos seus familiares e amigos e reconhecendo com toda a firmeza e clareza a linha justa, correcta, que o Partido está a seguir.”

 

Quando o Valentim – a quem afinal fora encomendada a elaboração daquele texto – se apercebeu da manipulação de que estava a ser alvo, dirigiu uma carta ao Director do Luta Popular a solicitar (aliás bem humilde e respeitosamente) a retirada desse mesmo texto, tendo essa sua carta sido igualmente censurada:

A “resposta” que foi então dada ao mesmo Valentim define quer quem a redige, quer quem a assina e é, pela sua natureza de puro e gratuito ataque pessoal, imprópria de aqui ser colocada.

Verificando então que o seu primeiro artigo, o tal que tinha sido “encomendado”, não iria ser retirado, o Valentim tratou de me dirigir uma carta aberta que publicou no facebook, e em que explicou o que afinal verdadeiramente se passara:

4. Lúcio censurado

Também o camarada José Machado, de Guimarães, e cabeça de lista da candidatura do PCTP/MRPP por Braga, foi alvo de saneamento assim que manifestou alguma espécie de reservas à posição de defesa dos ataques terroristas do Daesh, designadamente em França.

Desde logo, Arnaldo Matos dirige-lhe uma carta publicada no Luta Popular e intitulada: “Os Marxistas-Leninistas-Maoistas da França e da Bélgica e os Ataques dos Jiadistas Franceses e Belgas a Paris. De Arnaldo Mato para o Camarada Lúcio”, e na qual afirma:

“É o que acontece, segundo me dizem, com o camarada Lúcio, emigrante operário de Guimarães, um dos mais antigos militantes do Partido, que voltou agora, depois de uma viagem a França, para condenar o terrorismo islamista de 13 de Novembro em Paris. Se a informação é verdadeira, Lúcio abandonou o marxismo-leninismo e o internacionalismo proletário e assentou praça nas fileiras ideológicas reaccionárias do imperialismo francês, ao lado de François Hollande, de Manuel Valls, de Sarkozy, de Marine Le Pen… e de Alain Badiou.”

Ou seja, se não concorda com a leitura de Arnaldo Matos, a conclusão é óbvia: o camarada José Machado deixou de ser marxista-leninista e passou a ser um reaccionário.

Mas o que se torna mais relevante é que de imediato a intervenção de José Machado no jantar que se realizou em Guimarães da candidatura de Braga – que tinha sido antes apresentada por Arnaldo Matos como um exemplo, por contraposição à de Lisboa, do que deveria ser uma candidatura do PCTP/MRPP – foi também retirada do Luta Popular.

 

5. Outras manipulações

Sei hoje também que várias das deliberações formalmente apresentadas como tendo sido tomadas pelo novo Comité Central após a suspensão do anterior, e publicadas no Luta Popular, foram na verdade decididas e escritas pelo próprio Arnaldo Matos que, no dia anterior às reuniões, as entregava em envelope fechado apenas para serem assinadas pelos membros do Comité Central, provando assim que os seus membros não passam de fantoches nas mãos de alguém que isolada e unilateralmente decide o que quer e bem entende e que apenas assinam de cruz. Na verdade, isto até diz bem mais sobre o carácter dos segundos que do primeiro…

A 04/05/2016 é publicado um artigo no Luta Popular, assinado por Arnaldo Matos, onde ele próprio refere o seguinte:

“Ninguém no Partido, nem nenhum militante fora dele, pode defender publicamente posições políticas diferentes das que aparecerem no Luta Popular Online e a partir do momento em que aí apareçam (…)

Acontece todavia que, a propósito da luta dos taxistas portugueses contra a multinacional norte-americana Uber, houve dois militantes do Partido, inscritos como tal, que se adiantaram – aliás fora das suas células onde há muito não fazem nenhum trabalho político que se veja – com tomadas de posição políticas que não correspondem às posições políticas oportunamente adoptadas pelo Partido, designadamente através de comunicados.

Esses dois indivíduos foram já afastados do Partido, como liquidacionistas encapotados e sabotadores.”

Ou seja, não está já em questão conversar-se com esses dois militantes e explicar-lhes o porquê da sua posição ser a errada, mas antes afastá-los imediatamente do Partido sendo apelidados de liquidacionistas porque ousaram tomar uma posição sobre uma situação antes que o Partido publique o que quer que seja sobre o assunto. Isto, claro, até que algum destes “desertores” ou “liquidacionistas” preste fidelidade a Arnaldo Matos e aceite integrar a campanha de ódio contra o Garcia Pereira.

 

6. Desaparecimento da Figueira da Foz

Durante a campanha da Madeira, vários foram os militantes idos do Continente para a Madeira. Entre eles encontrava-se a Isabel Costa, da Figueira da Foz, que mais tarde aparece referida como nunca tendo feito parte do Partido pois nem sequer existiria uma célula do PCTP/MRPP na Figueira da Foz, o que “apaga” também a militância do camarada João Paz, militante antigo.

Isabel Costa com outros militantes em campanha na Madeira
Isabel Costa com outros militantes em campanha na Madeira

Inclusive, quando a camarada Isabel envia para o PCTP/MRPP a sua demissão, em Janeiro de 2016, a resposta que recebe por parte da “Comissão Organizadora” (que, como se sabe pelo Luta Popular, é afinal o próprio Arnaldo Matos), é esta e, no mínimo, absolutamente lamentável:

Ora, não deixa de ser estranho que Arnaldo Matos agora negue a militância de alguém que abdicou da sua vida pessoal para estar na Madeira para fazer campanha pelo PCTP/MRPP, tendo mesmo pago a viagem de avião do seu bolso e a quem, inclusive, o mesmo Arnaldo Matos enviava mails, incluindo este de 13/09/2015 a informar de uma carta que remetera ao Secretário-Geral do Partido, Luís Franco:

Ou seja, a partir de 6 de Outubro de 2015, passa a ser-se, ou não, militante do PCTP/MRPP consoante se alinha, ou não, com as posições, as medidas e os métodos de Arnaldo Matos. E essa passa a ser a única linha de separação dentro do Partido – ou te prestas a escrever, a assinar e a fazer tudo o que eu diga, e és do Partido e estás do lado da Revolução, ou não o fazes ou simplesmente manifestas qualquer tipo de reticência e pura e simplesmente és um desertor, um traidor, um liquidacionista, um social-fascista e estás do lado da Contra-Revolução…

 

António Garcia Pereira

Maio de 2017

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