Visita à fábrica de sapatos Jóia e o comício de Felgueiras

Anabela Oliveira, Garcia Pereira e António Teixeira à saída da visita

 

Uma das outras falsidades propositadamente debitadas no Luta Popular com o único propósito de procurar enlamear o meu nome relaciona-se com a visita à fábrica de sapatos Jóia que fiz durante as Legislativas de 2011 e a falácia de que eu teria vendido “o proletariado por um par de sapatos”!

O que se passou exactamente?

Estávamos em 2011, em campanha para as legislativas, e a direcção da campanha, juntamente com os camaradas do Norte, prepararam um plano de acções em que se entendia que eu deveria participar. Não estava, inicialmente, prevista qualquer deslocação na zona de Felgueiras a uma fábrica de calçado, mas soube mais tarde que o camarada António Felgueiras conseguiu organizar uma tal visita e que a mesma se iria fazer.

A pseudo-denúncia feita no Luta Popular assinada pela operária “Sandra” é completamente falsa e hoje sei que ela foi “fabricada”, até por não existir lá ninguém com esse nome na altura.

Não só não é verdade que eu não teria falado com os operários e, sobretudo, operárias da fábrica (pois falei, e até mais demoradamente do que alguns camaradas da brigada desejariam, com todos, designadamente com o Sr. José do balancé, a máquina de corte de pele) como também é falso que, no final da visita, o camarada António Teixeira tivesse gritado o que quer que fosse e menos ainda: “esse não precisa de sapatos, nós operários, é que precisamos”.

Também a visita não foi com o gerente da empresa, mas sim com o Sr. Luís, visto que o gerente não se encontrava em Felgueiras no dia da visita onde, aliás, toda a brigada circulou com grande liberdade de movimentos e de contactos.

Fábrica Jóia
Fábrica Jóia

Foi ele que, mesmo no final da visita, me ofereceu um par de sapatos – uns ténis – no valor, de uma dezena e meia de euros ou no máximo de duas dezenas, e que aceitei, tão somente por uma questão de cortesia para com aquela gentileza. Aliás, a Fábrica Jóia ainda hoje não fabrica sapatos no valor de milhares de euros, como indicado no artigo que foi publicado no Luta Popular e é tão ridículo quanto miserável vir dizer que os ditos ténis valeriam entre três e quatro mil euros!?

O próprio Rui Mateus – que recentemente aceitou assinar uma carta de apoio a Arnaldo Matos e que todos quantos o conhecem bem sabem não corresponder ao seu estilo de escrita – e que na altura integrava a brigada que fez a visita, confirmou explicita e precisamente tudo quanto acima refiro num comentário que fez no facebook a 12/05/2016:

 

Sei agora também que o próprio camarada António Felgueiras escreveu para o Luta Popular a indicar que era mentira o que tinham escrito mas da sua carta apenas foi publicada a parte que interessava aos actuais dirigentes, e não a parte em que ele refere ser mentira o que estava descrito.

Outra informação que entretanto me chegou é que um dos operários com quem estive bastante tempo a falar, o referido Sr. José, que operava o balancé, escreveu para o Luta Popular aquando da publicação da denúncia a desmentir tudo o que nela se dizia. Obteve como resposta um pedido de identificação de nome, mail, local de trabalho, e outros dados pessoais, o que ele fez. A resposta que teve de volta foi um insulto obsceno, indigno de aqui se colocar. E jamais os desmentidos destas pessoas foram publicados no Luta Popular, obviamente.

Assim, destorcendo por completo o que realmente se passou, se tratou de criar o “facto alternativo” que constitui uma absoluta calúnia como, aliás, o sabem os restantes camaradas que lá comigo estiveram.

Comício de Felgueiras

Mas já que se fala de Felgueiras, será talvez relevante que se recorde também a ida de Arnaldo Matos àquela cidade no ido mês de Janeiro de 2015.

Encontrava-se a ser preparado um comício em Felgueiras para o dia 10/01/2015 para o qual Arnaldo Matos tinha sido convidado a intervir, convite esse que, conforme referido pelo próprio, seria aceite desde que fossem cumpridos dois requisitos: 100 assistentes no mínimo e 10 seguranças, ou seja, 10 pessoas do PCTP/MRPP cuja única missão durante o comício seria a de assegurar a sua segurança. A minha presença, inicialmente também prevista, foi posta de parte por se entender que seria mais importante a minha presença na zona correspondente ao círculo por onde me iria candidatar (Lisboa).

Assim, no dia 6, conduzido por Domingos Bulhão num BMW alugado e pago pelo PCTP/MRPP, Arnaldo Matos deslocou-se a Felgueiras para verificar os preparativos que se encontravam a ser efectuados e o ponto da situação, tendo estado acompanhado com o António Teixeira e com o João Pinto, não tendo querido falar com nenhum operário nos diversos sítios pelos quais passaram, mas aproveitado a ocasião para se reunir com um responsável da União dos Sindicatos de Felgueiras e Vale do Sousa (CGTP/Intersindical).

Logo no dia seguinte, o Comité Central recebe um mail de Arnaldo Matos a cancelar a sua participação no comício:

“No meu entendimento, não há o mínimo de condições para efectuar o comício com a minha participação, previsto para o próximo sábado, dia 10 de Janeiro. (…) Comuniquem imediatamente a minha impossibilidade de estar presente, façam, por exemplo, substituir-me, alegando gripe súbita, o que servirá para não desanimar os contactos locais do Partido, e comecem a estudar a situação da classe operária em Felgueiras e a mobiliza-la para a luta, que é isso o que compete aos comunistas fazer.”

Por entre uma série de críticas à organização do comício que se encontrava a ser preparada pelos camaradas João Pinto e António Teixeira, Arnaldo Matos mostra ter conhecimento da tal oferta de sapatos, sendo que me foi depois comunicado por um camarada que lá esteve que o António Teixeira tinha falado a Arnaldo Matos da visita à fábrica que eu tinha feito, que eu tinha sido muito bem recebido pelos operários e que me tinham oferecido uns sapatos. Ou seja, sem qualquer intenção crítica.

O certo é que o comício foi realizado no dia 10. Não estiveram, efectivamente, 100 pessoas, mas 74 e, na ausência de Arnaldo Matos, que comunicámos estar “engripado”, o Partido decidiu ter de ser eu a ir e a fazer uma intervenção.

Não deixa no entanto de ser curioso que, na semana em que Arnaldo Matos regressa de Felgueiras, num dos nossos encontros, ele me haja referido com crispação, que o camarada António Teixeira, numa brincadeira, tinha feito uma referência ao facto de “os operários não andarem de BMW”, e que ele lhe tinha respondido mas nem próximo daquilo que efectivamente lhe apetecia ter respondido, e que só não o fez para não criar logo ali uma questão que prejudicasse, para não dizer inviabilizasse, a dita visita e os seus objectivos.

Ou seja, para a lógica manipuladora e persecutória a todo o transe do autor do texto do Luta Popular, visitar uma fábrica de calçado, falar ampla e demoradamente com os trabalhadores e, no fim, aceitar uns ténis de 15€ ou 20€, é trair o proletariado mas, dentro da mesma lógica, ir passear de BMW à porta das fábricas sem falar com os operários e avistar-se e conversar com um responsável da CGTP-Intersindical, não é.

A questão seria até ridícula e risível, não fora a gravidade daquilo que o uso consciente e intencional da manipulação e da falsidade consubstancia e representa.

António Garcia Pereira

Maio de 2017

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